quarta-feira, 22 de junho de 2011

LEVANTES ÁRABES ESTÃO LONGE DO FIM


APÓS SEIS MESES, LEVANTES ÁRABES ESTÃO LONGE DO FIM

“A pouco menos de seis meses de seu início, a "Primavera Árabe" –termo usado para denominar os movimentos populares que eclodiram recentemente no Oriente Médio e norte da África– já perdeu espaço na grande mídia.

Especialistas apontam que o tema ficou saturado por conta de sua grande duração. No entanto, segundo eles, o interesse econômico na cobertura dos conflitos também influenciou o espaço destinado às revoltas nos últimos meses.

"Não é fácil sustentar um assunto na mídia por muito tempo, por mais bombástico que ele possa ser", afirmou Lejeune Mirhan, sociólogo e especialista em mundo árabe. Os conflitos, que começaram na Tunísia em dezembro do ano passado, espalharam-se para outros países da região e ganharam projeção em todo o mundo.

Jovens, desempregados, mulheres, trabalhadores, sindicalistas e cidadãos de todos os tipos da região saíram às ruas para reivindicar direitos, se articular e saber mais sobre o efeito dominó que entraria para a história, mas que pouco tempo depois deixaria de ganhar o devido espaço na mídia internacional.

Segundo José Farhat, porém, a falta de espaço do assunto na mídia atualmente não está ligada apenas à saturação do tema. Para ele, que é diretor de relações nacionais e internacionais do ‘Icárabe’ (Instituto da Cultura Árabe), a mídia está evitando a cobertura dos conflitos porque já não há mais interesse dos Estados Unidos e da Europa em divulgar o que acontece na região.

"A mídia deixou de cobrir, mas isso não se restringe ao Brasil. Nesse momento, não está interessando mostrar o que está sendo feito lá, o que está acontecendo de verdade. Isso porque eles (exércitos estrangeiros) estão atacando áreas residenciais, matando civis na Líbia, por exemplo", afirmou Farhat, que citou exemplos sobre a cobertura recente.

"Você é o segundo jornalista que me procura esta semana. Há dois meses atrás, eu ia à televisão duas vezes por semana, ia aos jornais, me ligavam todos os dias. Hoje, já não interessa aos grandes divulgadores de todo o noticiário internacional mostrar o que está acontecendo lá. Na Palestina, os movimentos de juventude estão acontecendo, mas isso não interessa. O Iêmen não está no noticiário porque não tem petróleo, não há interesse do Reino Unido ou dos Estados Unidos na cobertura desse país", concluiu.

FALTA DE INFORMAÇÕES

A historiadora Arlene Clemesha, conselheira do ‘Icárabe’ e professora da USP (Universidade de São Paulo), concorda com Farhat, mas diz que a falta de informações precisas a respeito dos conflitos também influenciou na cobertura geral das revoluções.

"O assunto se saturou porque foram muitos os países envolvidos, sendo que a maioria das pessoas tinha pouco conhecimento a respeito de cada um deles. Isso reduzia o interesse. Além disso, havia também a dificuldade para acesso às informações. Na maioria dos casos, essas informações eram imprecisas, pois o acesso aos jornalistas de todo o mundo foi restringido pelos próprios governos", explicou.

DIFERENTES REVOLUÇÕES

Os protestos e conflitos estão a poucos dias de completar meio ano, e parecem longe de se encerrarem tão cedo. Alguns processos revolucionários perderam a força com o tempo, mas outros continuam intensos.

Os especialistas afirmam, no entanto, que se deve esperar pela definição de, pelo menos, alguns países neste segundo semestre. Mirhan aposta que, nos próximos meses, tanto Egito quanto Tunísia avançarão definitivamente em relação a seus processos revolucionários.

"O processo revolucionário está mais avançado no Egito e na Tunísia. Esta última, no segundo semestre, deverá ter seu governo eleito ou constituído e deverá ser muito progressista e avançado. Já o Egito tem eleições agendadas para o mês de setembro", explicou o especialista, que citou também o país onde o processo revolucionário está mais fraco.

"O mais fraco de todos é onde o império é mais forte, que é a Arábia Saudita. O país não tem constituição ou parlamento. Ali, portanto, está a oposição mais fraca em relação aos outros países”, concluiu.

Farhat concordou com o sociólogo e disse que não espera pela manutenção dos regimes ditatoriais do Oriente Médio e norte da África nos próximos anos. Segundo ele, a juventude que promoveu a revolução não deixará que ela esfrie.

"Eu diria que, daqui a 20 anos, nenhum desses regimes colocados em qualquer país árabe pelo Reino Unido na I Guerra Mundial vai permanecer. Os jovens, que representam 20% de todos os árabes, não vão querer continuar sob regimes ditatoriais. O ditador é igual a um pai que oprime todos dentro de casa. Esse jovem está se rebelando contra esse segundo pai. Foi a juventude que começou e será a juventude que continuará essa revolução", concluiu.

Para Clemesha, o assunto não deverá receber cobertura destacada da mídia novamente até que as revoluções ganhem novas configurações políticas. Esse processo, segundo ela, pode demorar.

"A mídia sabe que este é apenas o início dos processos de mudança política, que sempre começam por confrontos e grandes manifestações, então passaram a priorizar outros assuntos. Os jornalistas sabem que agora estamos entrando em um processo de transformações lentas e que ainda deve durar por um bom tempo. Então, acredito que muitas vezes o deixem de lado para retomar a cobertura quando novas configurações políticas realmente acontecerem de fato", afirmou.”

FONTE: site “Opera Mundi”. Transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=156829&id_secao=9)

3 comentários:

Darkkann disse...

gostaria de saber quem está por tras dessas rebeliões, porque até onde eu sei, a situação nos paises onde elas estão acontecendo sempre foi muito ruim. esperaram o que, 30, 40, 50 anos pra reclamar? porque só agora, porque não fizeram antes? me parece que a 'primavera arabe' não é um movimento genuinamente popular, o povo está sendo manipulado. e eu doido pra descobrir quem são os verdadeiros 'rebeldes'!

Política disse...

Darkkann,
Boa pergunta. Por que somente agora os EUA e OTAN resolveram bombardear a Líbia para tirar o Kahdafi do poder, sem respaldo da ONU para isso? Por que não bombardeiam outros onde há o mesmo tipo de 'rebeldes', de insatisfação popular e de repressão dos governos? Muito estranho. Este blog já postou alguns artigos de analistas internacionais que explicam em parte esses mistérios. As justificativas giram mais em torno da cobiça das grandes potências ocidentais pelo petróleo e, também, para evitar que certos países fujam, como ameaçaram a Líbia, a Síria, o Irã, do "padrão dólar" como moeda de troca.
Maria Tereza

Darkkann disse...

a midia diz que o facebook teve papel importante na revolução. a cia encheu o site de perfis falsos pra defundir uma visão pró-eua e identificar possiveis inimigos. juntando 1 com 1... é a suspeita que eu tenho, de que os eua e aliados é que estão fomentando essas revoluções. não só atraves do site, claro, mas fisicamente também.