quinta-feira, 23 de junho de 2011

EMBURRECIMENTO GERAL PELO CINEMA E TV


O CINEMA, A TEVÊ E O EMBURRECIMENTO GERAL

Por Rodolpho Motta Lima

“Ando mesmo convencido, e cada vez mais, de que, para o bem da circulação das ideias e da proposição saudável do contraditório, não devemos “partidarizar” certos assuntos com tratamento maniqueísta ou fundamentalista, que não ajuda a esclarecer e estigmatiza posicionamentos em função da coloração política de seus autores.

Falo isso, hoje, a propósito de uma crônica do Arnaldo Jabor, que ouvi há dias na CBN, em que ele fazia considerações sobre o filme “Se beber não case II”.

Geralmente, quando o Jabor abre a boca para falar de política (ou seria o bico, pelo viés tucano de suas palavras?), minha tendência é discordar dele em gênero, número e grau, porque, a meu juízo, nesse campo, ele se incorpora ao pensamento neoliberal com o qual jamais virei a compactuar, nivelando-se ao grupo “global” de uma mídia que quer ser um partido político sem os ônus de sê-lo e sob o disfarce da “crítica de interesse público”.

Contudo, não nego ao jornalista/cineasta o brilho intelectual que possui. Isso seria a tal visão maniqueísta que não pretendo manifestar. Assim, e voltando à sua crônica, participo do que ali ele disse sobre o filme, na realidade um exemplo por ele escolhido para falar da mediocridade que cerca a maior parte dos filmes que chegam aos circuitos brasileiros, geralmente americanos, do tipo “besteirol”, em um apregoado apelo popular que, na verdade, é um primado de idiotice e, por isso, emburrecedor.

Joãozinho Trinta, em certa oportunidade falsamente guindado pela mídia à condição de “filósofo popular”, teve repercutida frase a ele atribuída de que “quem gosta de miséria é intelectual, pobre gosta de luxo”, para justificar a descaracterização dos elementos populares nos desfiles das escolas de samba, marcados por apoteóticos efeitos especiais. É óbvio que não apenas as camadas populares, mas qualquer cidadão normal, não pode mesmo gostar de miséria. Mas isso não quer dizer, por via de consequência, “gostar do luxo”, do supérfluo, e sonhar com o fausto e a ostentação, trocando, pelo devaneio, a realidade concreta a modificar no plano social. Na verdade, o que o povo quer, aquilo pelo qual deve ser estimulado a lutar, é paz, educação, saúde, dignidade, cidadania.

Essa enxurrada de filmes de quinta categoria, que tratam do escatológico, valorizam o pornográfico e constroem a imbecilidade travestida de humor, apenas reproduz, a meu ver, um processo crônico, tão velho quanto o mundo, de desqualificação e emburrecimento das grandes massas populares, através do empobrecimento cultural.

Sempre souberam disso os poderes estabelecidos constituintes do assim chamado “sistema” –algo que passa por cima de governos e de siglas partidárias, como guardiões do “status quo”. Desde sempre, vêm “alimentando” o povo com futilidades a baboseiras que o convidam a rir (talvez de si mesmo), divertir-se com a vulgaridade e o ridículo, mas nunca a refletir. Isso vem do “pão e circo” romano, passa pelo ópio na China, chega às mídias “amortecedoras” de hoje. É um estranho amortecimento, que envolve ensandecidas corridas de carro, centenas de disparos e montões de corpos ensanguentados, às vezes em 3D...

O Jabor não falou –e acho que não falaria– que não é só no cinema que assistimos a esse festival de coisa alguma que enche de nada as cabeças e convidam a não chegar a qualquer lugar. O que dizer, por exemplo, da nossa programação da tevê aberta, com sua zorra total, seus caldeirões e outros “ões”, suas fazendas e ‘big brother', chaves, ratinhos e outros bichos? O que falar da missão que cumprem as atuais novelas da tevê, numa sucessão que cobre todo o horário nobre com suas previsíveis futilidades e falsas preocupações? Uma novela “digestiva” para a noite dos brasileiros, vá lá... Mas quatro seguidas é demais... Impossível que não seja intencional...

Um povo se fortalece na educação, isso já virou lugar-comum. Mas educação é tema que permeia diversos segmentos que compõem o espectro social e tem muitos atores. Ninguém ousa falar de cultura como um bem de apropriação exclusiva nas escolas. Uma letra do cancioneiro popular afirma que “samba não se aprende no colégio”, a mostrar que certos valores culturais estão no cotidiano, no interagir diário.

O cinema, a tevê, o rádio são alguns dos veículos auxiliares da disseminação desses valores. Mas não são entes mágicos, demiurgos, ou algo assim. Têm, atrás de si, homens de carne e osso que pautam suas programações e firmam sua ideologia. E se o objetivo dessas pessoas é a manutenção de um processo de empobrecimento cultural que serve às elites que elas representam –através dos filmes que o Jabor critica e da formação subliminarmente perversa das grades da tevê– quem trabalha em educação, como eu, só pode lamentar. E, mais que isso, denunciar.

É claro que o cidadão pode decidir não ir ao cinema, ou escolher filmes de qualidade, que os há. É óbvio que qualquer um pode desligar a tevê ou nela buscar uma programação alternativa, que ainda existe. Mas todos sabemos a força dos processos de massificação e como é difícil alguém escapar das técnicas e métodos de propaganda que fazem muitos engolir gato por lebre e, para dar um exemplo no âmbito da música popular, trocar o “ponha-se a pensar” das composições de ontem por um “tira o pé do chão” dos “sons” de hoje.

Romper esse círculo vicioso e viciado que empobrece a mente dos brasileiros é tarefa hercúlea, sem grandes possibilidades de êxito, tal o rolo compressor que nos esmaga. Mas é preciso insistir...”

FONTE: escrito por Rodolpho Motta Lima, advogado formado pela UFRJ-RJ (antiga Universidade de Brasil) e professor de Língua Portuguesa do Rio de Janeiro, formado pela UERJ. Com atividade em diversas instituições do Rio de Janeiro e militância política nos anos da ditadura, particularmente no movimento estudantil. Funcionário aposentado do Banco do Brasil. Artigo publicado no site “Direto da Redação” (http://www.diretodaredacao.com/noticia/o-cinema-a-teve-e-o-emburrecimento-geral).

3 comentários:

Darkkann disse...

filmes e programas de qualidade existem, só que o povo não gosta.

o cinema e a tv atendem a demanda, se uma coisa atrai mais publico, é nela que eles investem. então se for culpar alguém, tem que culpar o publico que dá audiencia pro que não presta.

mas o que faz as pessoas terem maior simpatia pelo grotesco, a propria natureza delas ou a falta de educação? se for a primeira, não há o que fazer, mudar a natureza das coisas é impossivel. se for a segunda, basta melhorar a educação.

e educar é obrigação do estado (público), não da televisão ou do cinema (privados). os ataques constantes feitos a eles me parecem mais uma forma de expiar a responsabilidade do governo e desviar a atenção do que poderia ser o problema real.

Política disse...

Darkkann,
Creio que o tema é mais complexo. A televisão e o cinema não somente são reflexos do interesse da população, como também influem na educação do povo, na sua cultura. Parece um pouco como saber quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha. A televisão, mesmo que seus lucros sejam privados, é concessão pública, do Estado. Assim, tem sua responsabilidade por piorar ou melhorar a educação pública. Muitos filmes nacionais recebem financiamento subsidiado da EMBRAFILME e o Estado abdica recolher impostos deles, via Lei Rouanet. Assim, concordo. É responsabilidade também do governo fiscalizar e melhorar a influência das TVs e filmes na sociedade. Não se deve expiar essa responsabilidade do governo.
Maria Tereza

Darkkann disse...

a tv publica não tem nada de educativa e os filmes financiados pelo governo muito menos.

escola -> educação
tv/cinema -> entretenimento

eu continuo achando que a formação de um publico mais exigente irá melhorar o conteudo dos meios de comunicação como um todo.

se voce bota um programa inteligente na tv, ele mingua na audiencia porque o povo não assiste e não assite porque não entende e não entende porque não foi educado pra isso.

a melhor forma de se educar ainda é a tradicional, feita na escola, com interação entre alunos e professores e tempo de sobra pra desenvolver as disciplinas.

a linguagem da tv é rápida demais, não permite aprofundamentos, sem contar que ela só pode oferecer uma educação passiva, sem participação dos educandos.

com um publico bem formado, ai sim poderemos pensar na tv como um complemento a educação tradicional - se bem que isso deve acontecer naturalmente. por hora, é focar os esforços nas escolas e esquecer o resto.